Erros de quem encara uma entrevista jornalística com insegurança e despreparo

abril 28, 2020

  Por Andrea Espírito Santo, jornalista

Em uma entrevista jornalística, o entrevistado (ou porta voz) ganha a oportunidade de falar diretamente com a sociedade ou um público específico. A conversa, quando é pessoalmente, por telefone, para um programa de rádio ou tevê, tende a ser conduzida como um bate papo, onde o porta voz pode ampliar seu conteúdo para além das questões feitas pelo jornalista, pois o público espera sua contribuição de forma mais ampla em determinado assunto.

Apesar disso, muitos porta-vozes ainda têm postura equivocada e encaram a entrevista como provocação ou colocam o jornalista na posição de uma pessoa sob seu controle. Para alertar sobre erros comuns de quem entende uma entrevista jornalística como um duelo e ajudar a perceber por que os equívocos acontecem, eu mostro a seguir alguns deslizes que já presenciei em minha experiência como jornalista de redação, que serviram como estudo de caso em minha carreira como especialista em comunicação corporativa, veja:

O entrevistado não dialoga com o repórter nem lhe oferece um debate mais rico sobre seu setor ou assunto tema da entrevista, limitando-se apenas a responder às perguntas feitas. Parece que o porta voz está “fazendo um favor” em atender o jornalista.

Encarar o entrevistador como inimigo. As crenças de que o repórter quer prejudicar ou o entendimento de que a pergunta é um ataque ou uma agressão é comum em entrevistados inseguros sobre quem são e sobre o que têm a dizer.

Encarar a entrevista como um jogo de ganha-perde. A entrevista não é para o entrevistador e sim para o público, é para prestar informações e todas as perguntas devem ser consideradas. Quem é inteligente aproveita a chance e agradece pela oportunidade!

Classificar as perguntas como sendo inúteis ou “burras”. Se o repórter questiona é porque deseja um esclarecimento. Cabe ao entrevistado responder como se fosse a primeira vez, afinal ele é a fonte a quem está sendo concedida a chance de explicar. Isso também transmite ao público e ao jornalista a imagem de autoridade no assunto e acessibilidade.

Atender somente a um veículo, ignorando os demais. Todos os veículos de comunicação possuem um público e são, de alguma maneira, importantes para divulgação de informações. Não se deve privilegiar um veículo em detrimento de seu concorrentes, ou não conceder entrevistas a jornais de bairro ou rádios comunitárias por considerá-las “menos importantes”.

O jornalista é meu amigo. Pode haver uma relação amistosa entre o porta voz e os profissionais do jornalismo, mas esta deve ser encarada não como amizade pessoal, pois o jornalista não tem compromisso nem autonomia para facilitar as coisas no meio de comunicação para “amigos”. Trate a relação de forma distanciada deste conceito ou delegue outro porta voz para a missão de conversar com o jornalista.

Divulgar informações falsas, imprecisas ou não confirmadas. Essa prática abala a credibilidade do próprio entrevistado e sua empresa ou associação.

Pressionar profissionais para que a reportagem seja veiculada. Dependendo do tema da entrevista, a reportagem pode “cair”, ou seja, não ser veiculada, mesmo que já tenham sido feitas fotos, gravações, etc. Não adianta pressionar o assessor de comunicação, o repórter ou o editor do jornal. Isso somente abalará a imagem de quem está fazendo a pressão.

Pressionar profissionais para que a reportagem não seja veiculada. Se a reportagem é negativa à instituição ou a pessoas, é baseada em fatos verídicos e foi feita pelo jornalista de maneira ética e profissional, não existe justificativa para que ela não seja veiculada. O que se deve fazer é contar com uma estratégia de comunicação assertiva para responder às críticas ou denúncias e promover ações para corrigir o erro.

Oferecer presentes ou brindes ao jornalista. As boas práticas de Compliance do meio corporativo já chegaram às redações e os presentes são mal vistos, como se a fonte ou a marca estivesse tentando “comprar” ou ganhar a simpatia do jornalista para que ele seja mais brando na hora de escrever.

Pedir para ler a reportagem e/ou as anotações. O jornalista faz a matéria para o seu veículo (e o público-alvo do veículo), não para o entrevistado. Pedir para ler a matéria ou as anotações que ele está fazendo durante a entrevista soa como tentativa de censurá-lo na divulgação das informações ou falta de confiança em seu entendimento sobre o que foi falado. Se o entrevistado está preocupado com a divulgação correta das informações, o melhor a fazer é ser bastante claro durante a entrevista e fazer o jornalista compreender bem o assunto.

Estabelecer condições para a entrevista. Alguns entrevistados, até por desconhecimento sobre como funciona a imprensa ou por insegurança, impõem condições que o jornalista não pode e não tem obrigação de cumprir. Isso pode acabar com a oportunidade da entrevista e arranhar a reputação do porta voz.

A muitos entrevistados que cometem os equívocos citados acima falta o entendimento de como funciona a imprensa e a dinâmica dos meios de comunicação. Isso é possível reverter através do apoio de uma assessoria de imprensa e um treinamento personalizado em comunicação e expressão verbal e expressão corporal que podem resultar nas melhores orientações a cada entrevista e, através da prática, preparar o porta voz para que fique mais seguro em suas posturas com o profissionais da imprensa.

Não menos importante mas bastante oportuno, eu indico que todos aqueles que se propõem a ser porta vozes de uma marca ou empresa que façam uso da inteligência emocional à qual já recorrem todos os dias: a prática de paciência, gentileza, empatia, respeito e humildade. Seja autêntico, porque está diante de uma oportunidade para dialogar com o público, e o jornalista e o meio de comunicação são as suas ferramentas.

Quer ser um porta-voz de qualidade? Recicle-se! A vida nos dá oportunidades de sermos melhores pessoas a cada dia. Basta aproveitá-las.

[Foto de Matheus Bertelli no Pexels]